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terça-feira, 03 dezembro 2019 12:17

José Pereira Miguel - apresentação do livro “Retrato da Cruz Vermelha” de Luiz Gonzaga Ribeiro

Discurso de apresentação do livro “Retrato da Cruz Vermelha” do Almirante Dr. Luiz Gonzaga Ribeiro por ocasião do seu lançamento no passado dia 29 de Novembro, na Biblioteca do Palácio do Conde d'Óbidos.

Introdução

Começo por agradecer o que considero uma grande honra: que o Senhor Almirante Dr. Luiz Gonzaga Ribeiro, ex-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, me tenha escolhido para apresentar o seu livro “Retrato da Cruz Vermelha”. Ligam-me ao Senhor Almirante admiração e amizade sinceras, construídas desde os anos 80, em que nos conhecemos, e eu fui o seu diretor do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa.

Por outro lado, tocam-me sempre e agradeço as oportunidades de regresso à Cruz Vermelha Portuguesa. Sinto-me com isso sempre, de algum modo, a contribuir para o bem comum e a matar saudades que me vêm da infância.

Teria eu cerca de sete anos quando me dei conta, pela primeira vez, da existência da Cruz Vermelha. Recordo o velho Cavaleiro Andante, a revista da minha juventude, que no nº 138 (21 de Agosto de 1954) com o título “O homem branco de Solferino” expunha as ideias e a luta de Henri Dunant. A história terminava com o primeiro Prémio Nobel da Paz, que lhe foi atribuído em 1901. Note-se que a Cruz Vermelha Internacional ganharia ela própria o Nobel da Paz em 1917, 1944 e 1963, neste ano com a Liga Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha.

Entre outras recordações avulsas estão, ainda da juventude, as de filatelista amador, recolhendo os selos da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, com impressões a partir de 1890, de porte franco, selos privativos de uma entidade que gozava de isenção de franquia postal.

Quando mais tarde, já em fim de curso, no tempo do Presidente Brigadeiro Ricardo Horta e de D. Maria Amélia Pita e Cunha, me vi envolvido, pela iniciativa da minha assistente de Pneumologia, Dra. Maria de Lurdes Fonseca Santos, na chamada Cruz Vermelha da Juventude, dei-me conta de como aquelas antigas memórias me tinham sensibilizado e impeliam a colaborar. Ficou-me sempre a ideia de que quanto mais cedo tocarmos os jovens sobre as questões humanitárias e a solidariedade tanto mais adesão teremos.

Tenho muitas outras recordações da Cruz Vermelha, mormente enquanto médico e diretor do Hospital da Cruz Vermelha, de 1983 a 1993, para onde fui recrutado pelo Dr. José António Mendes Ribeiro, a quem aproveito para cumprimentar também com admiração e estima. Nos tempos mais recentes participei por convite nalgumas atividades orientadas pelo presidente Dr. Luís Barbosa e equipa e pontualmente da Associação dos Alistados nas Formações Sanitárias.

Visão geral do livro

Por ocasião das recentes comemorações do tricinquentenário da Cruz Vermelha Portuguesa e dos cem anos da nossa participação na 1ª Guerra Mundial o Senhor Almirante Gonzaga Ribeiro proferiu quatro conferencias, duas na Sociedade de Geografia (Secção de História da Medicina) e duas na Cruz Vermelha Portuguesa e deu testemunho pessoal da sua experiência na organização. Este foi o acervo que agora reuniu em livro sob o título “Retrato da Cruz Vermelha”.

São cerca de 100 páginas de história da Cruz Vermelha Portuguesa no primeiro quartel do século XX focando vários episódios demonstrativos da sua capacidade, dedicação dos seus membros e valores por que se tem pautado.

Vem a propósito comentar a palavra “retrato” escolhida para melhor caracterizar o conteúdo do livro. Conforme a Wikipédia “espera-se que um retrato bem executado mostre a essência interior do sujeito”. Foi esse o cuidado do Autor. A essência da CV é a prática da solidariedade sobretudo perante as catástrofes naturais ou antropogénicas.

O texto é todo ele muito agradável de ler, claro, rigoroso (com as referências precisas e notas de rodapé sempre que conveniente). As intervenções da CVP incidem sobre variado tipo de situações mas as revoltas armadas ou a guerra sobressaem.

Como médico admito, com o Autor, que possamos ter alguma sensibilidade particular a estes acontecimentos. A mesma que terá levado Ricardo Jorge, em tempos da 1ª Guerra Mundial, a escrever um notável ensaio intitulado “A Guerra e o Pensamento Médico”. Dele transcrevo: “Que diz a guerra ao médico, ao seu modo de sentir e de pensar, incutido por educação e profissão ? Que havemos de ver nela senão a negação de nós mesmos, do nosso próprio espírito e ação! A guerra é a arte de matar, a medicina a arte de viver; o que uma cria a outra aniquila”.

No livro, o que mais me surpreendeu foi a preocupação em tirar ilações morais dos factos tão bem descritos, enquadrando-os no âmbito dos valores e princípios da Instituição. Dir-se-ia que em boa parte o livro se baseia em diversas “histórias de proveito e exemplo”. E, sublinhando as conclusões tiradas a par e passo, assinalo a frase sempre elogiosa do Autor: “Isto é a Cruz Vermelha”.

Algumas palavras escritas retinem de intensidade pela positiva: solidariedade, humanidade, etc. Outras, têm a causticidade da reprovação: por ex. os predadores oportunistas. Surgem sempre. Aparecem na Batalha do Buçaco, tentando apropriar-se dos parcos bens dos mortos e dos feridos, nas revoluções, na Guerra - tentam ganhar aproveitando-se do caos e da miséria dos outros. São a antítese dos heroicos e abnegados voluntários da CV .
Estas e outras palavras fortes, por vezes contundentes, ajudam ao julgamento sobre o que se passou neste primeiro quartel do século XX e a enaltecer a Instituição.

O Autor

Na badana do livro encontramos um resumo curricular do Almirante Dr. Luiz Gonzaga Ribeiro. Permito-me salientar alguns aspectos que estou certo terão concorrido para a qualidade da obra : Médico, com o curso de saúde pública e a especialidade hospitalar de Medicina Interna; Contra Almirante com longas comissões de serviço na África e Ásia; Diretor Geral dos Hospitais e do Departamento de Recursos Humanos do Ministério da Saúde; Presidente Nacional da Cruz Vermelha Portuguesa (1986-1993); Agraciado com múltiplas distinções de mérito; Autor de diversos estudos sobre História.

Contudo, gostaria de adicionar a este insigne perfil as qualidades de que me apercebi como seu colaborador na direção do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa em Lisboa. Na altura, o Presidente da CV presidia ao Conselho de Administração do Hospital e nesse enquadramento se tomavam as decisões mais importantes. Recordo todo o carinho e cuidado com que o Dr. Gonzaga Ribeiro tratava as questões do Hospital assegurando-se sempre do seu fundamento técnico e científico, bases de sustentabilidade económica e alinhamento com os interesses e ideais da Cruz Vermelha.

O nosso Presidente era gentil no trato e compreensivo, tolerante perante os nossos sonhos, por vezes arriscados. Passámos períodos muito difíceis, de grande espartilho orçamental, por muitas e diversas razões, mas sob a sua orientação superior pudemos ainda assim ensaiar novos caminhos que ainda hoje perduram. Sempre o vimos proceder com a maior cautela, com firmeza e retidão, pondo os interesses da CVP acima de quaisquer outros, incluindo os dos nossos colegas médicos.

Gerou-se entre nós uma compreensão e amizade que muito me honra e tem continuado até hoje. Por isso nos pudemos reencontrar em múltiplas instâncias, tanto em privado como em público, nomeadamente, no curso de Medicina Humanitária na Faculdade de Medicina de Lisboa.

Movimento e Cultura da Cruz Vermelha

No primeiro capítulo do livro o Autor procura caracterizar a essência do Movimento Mundial da Cruz Vermelha salientando desde logo, e porque se dirigia sobretudo a médicos, que esta é aliada da Medicina, ambas procurando a defesa da vida, da saúde e da dignidade da pessoa humana.

A partir daí avança na menção de dois elementos de referência no seu caminho social, a que chama o código de honra e a obra-prima. O Código de Honra da CV é constituído pelos seus sete princípios fundamentais: universalidade, unidade, independência, neutralidade, voluntariado, imparcialidade e humanidade. A obra-prima, são as várias Convenções de Genebra que têm força de lei nos países signatários.

É neste enquadramento que o leitor é instado a avaliar as intervenções da Cruz Vermelha e, como tal, as que decorreram no primeiro quartel do século XX. É ainda a partir deste domínio histórico que o Autor extrai ilações com aplicação no presente.

Por isso fala repetidamente em “cultura humanitária”, em “cultura de solidariedade”, em “cultura da CVP”. Como uma constatação e uma necessidade em múltiplos e importantes momentos, como um desígnio para agora e para sempre.

Para o Autor, a “cultura muito própria da CVP”, que identifica nos vários episódios descritos, integra a “prontidão nas decisões, no planeamento, na preparação das ações, a coragem, o discernimento, a entrega, a disciplina na atuação, passando pela determinação de prioridades, pela humanidade, pela serenidade, paciência, persistência, resistência física e moral, contenção de atitudes, constante apelo ao essencial, erros prontamente detectados e compensados”.

Estas qualidades são constantemente reconhecidas ao longo do livro. Mantem-se sempre presente a afirmação: “Vamos por aqui. Este é o nosso caminho”.

Na mesma tónica o último capítulo evoca os 150 anos da Cruz Vermelha Portuguesa sob a égide do Movimento Cruz Vermelha enaltecendo a virtude da solidariedade. Para tornar mais clara a abordagem o Autor refere vários episódios da sua presidência que a exemplificam bem: assistência ás vítimas do desastre ferroviário da Beira Alta, inundações numa cidade costeira, dramático surto de malária num país insular e tropical. Ainda como ilustração, cita vários casos resolvidos pelo Serviço de busca de pessoas desaparecidas e reunião de famílias. Tudo situações evidenciando diversas vertentes da solidariedade. Por isso, o Autor permite-se um refrão, com o destaque de ser escrito em maiúsculas, devidamente espaçado no texto, e repetido sete vezes: “E isto é Cruz Vermelha”. Pela minha parte, só acrescentaria a cada frase um ponto de exclamação.

A Cruz Vermelha no Primeiro Quartel do Séc. XX

Nesta secção do livro o Autor aborda cinco crises humanitárias em que a CVP se empenhou, entre 1909 e 1921, tendo como causas catástrofes, naturais ou decorrentes da ação humana. São exemplos bem demonstrativos de como se concretizaram os valores e princípios da Instituição, face a muitas adversidades, e como se foi criando uma verdadeira cultura organizacional. Certamente que uma organização nacional, com a dimensão da Cruz Vermelha, em muitas outras situações terá participado. Contudo, estes casos são paradigmáticos e estão muito bem documentados em relatórios oficiais, todos devidamente referenciados. Isto permitiu um relato fluído, por vezes quase cinematográfico, que nos prende ao fio da história e nos comove.

Sublinhemos alguns aspectos:

Terramoto de 23 de Abril de 1909

A página do Município de Benavente na internet refere-o como o mais devastador em Portugal Continental no século XX, destruindo quase por completo os aglomerados de Benavente, Samora Correia e Santo Estevão; com uma magnitude estimada de 6,7 graus na escala de Richter; provocando 40 mortos e 70 feridos, que parece não terem sido mais porque ocorreu a hora em que a maioria da população estava nos campos.
Em resposta, a Direção da CVP definiu de imediato as ações de socorro: apoio pecuniário, subscrição pública, pagamento de receituário a pobres, mobilização de ambulâncias para o local. Depois de descrever as diversas operações o Autor conclui que a ação foi brilhante, pela “prontidão, altruísmo e generosidade da CVP que contagiou terceiros”.
Epidemia de febre tifoide em Castro Laboreiro, Janeiro de 1914
Nos confins do Minho, na Serra da Peneda, fronteira com a Galiza, Castro Laboreiro teria seguramente nesta época as más condições de saneamento, salubridade e higiene que propiciam a infecção pela Salmonella typhi veiculada por alimentos ou água contaminados.
A epidemia começara no Verão e já tinha uma mortalidade apreciável. A CV foi mobilizada e o plano de ação de uma equipa que incluía médicos, farmacêuticos e enfermeiros, incluía o isolamento, dieta, tratamento dos doentes, vacinação dos sãos e medidas de higiene. A dispersão das povoações e a invernia dificultavam as atividades. Foi montada uma tenda hospitalar que resistiu aos temporais. Todas as dificuldades foram suplantadas até à alta do último doente em Abril. O Autor salienta a resistência física e moral da equipa, a sua generosidade, coragem, paciência (face aos desvios das boas práticas), disciplina, ordem e dedicação.
Revolta política de 14 de Maio de 1915
A sede da CVP era no Terreiro do Paço. Começam os bombardeamentos por navios de guerra surtos no Tejo. Chovem os pedidos de socorro. “O trabalho era intenso, o perigo de ser atingido era enorme, mas a resposta ia sendo corajosa e eficiente” diz o Autor. Por diversos motivos as próprias instalações da CVP estavam em risco e foram alvejadas. A revolução continuou durante quatro dias e com muitas peripécias.

No final, além do transporte de feridos tinham sido feitos mais de 200 tratamentos no Terreiro do Paço e removidos 31 cadáveres. O Autor impressiona-se com o Relatório final que, apesar das potenciais queixas, não acusa ninguém. Por outro lado, reconhece a coragem, prontidão, generosidade e eficiência do pessoal de socorro.

Revolução a 5 de Dezembro de 1917 (a de Sidónio Pais)

Novamente a sede da CV debaixo de fogo, neste caso partindo dos entrincheirados no Parque Eduardo VII em direção ao Terreiro do Paço e ao rio. Generaliza-se o tiroteio, um pouco por toda a parte. Chegam a verificar-se 42 detonações em três minutos.

Correndo riscos apreciáveis o pessoal da CVP presta socorros “com denodo, com ordem, com entrega, numa situação em que portugueses se digladiavam contra portugueses num duelo de morte e destruição” para usar a expressão do Autor. E, ainda a corroborar, surge a magnífica ideia de que poderia ser oportuno a CVP tentar mediar o conflito. Bernardim Machado, Presidente da República, aceita a sugestão e, no campo oposto, também Sidónio Pais. Após algumas démarches a mediação é concluída com êxito, cessando as hostilidades.

Para lá do reconhecimento dos bons serviços constante do relatório final o Autor salienta “o comportamento social e heroico, a disciplina e organização, o saber com sensatez que permitiram ultrapassar a mera missão de socorro para assumir com êxito a mediação do conflito”.

Golpe de Estado de 19 de Outubro de 1921

“Noite sangrenta” ou “noite infame” como lhe chamou Raúl Brandão, em que foram assassinados diversos políticos heróis e fundadores da República. Jaime Nogueira Pinto no seu livro “Nobre Povo – os anos da República” descreve de forma impressionante as voltas da camioneta-fantasma e as diversas ocorrências onde pontifica o Dente De Ouro, o cabo Abel Olímpio, um refinado malandro e assassino. Também cita duas vezes a CVP cuja atuação no “Retrato da Cruz Vermelha” é mais extensamente analisada.

A CVP ajuda a transportar ao hospital o ex-Primeiro Ministro António Granjo que tinha sido atingido a tiro. O Autor descreve as cenas dramáticas passadas no Arsenal da Marinha e depois no Hospital de São José com alguns pormenores curiosos e ainda a atuação e cuidados do Comissário da CVP. Surgem dúvidas sobre os objetos encontrados nos bolsos do Dr. António Granjo, à entrada no necrotério, e tentativas para que fosse identificado um cabo da Marinha suspeito, entre outros aspectos que interessam à imprensa e ao próprio Tribunal de Santa Clara. O Comissário mantem-se firme e independente nos depoimentos, e, tolerante com a imprensa perante a deturpação das suas palavras.

O Hospital da Cruz Vermelha em França

Este é o capítulo mais extenso do livro, ocupando 46 páginas e apresentando diversas ilustrações. A abrir, o Autor deixa logo antever o leit motiv: as pessoas e as instituições “face a uma situação dramática, vêm a encontrar em si capacidades desconhecidas até então que as conduzem a uma saída vitoriosa”. E assim foi com a CVP na 1ª Grande Guerra (1914-1918).

Para melhor se compreenderem as necessidades de ajuda humanitária e a resposta da CVP o Autor começa por situar o leitor nas origens do conflito, mencionando os diversos interesses em presença e como afetavam Portugal. Por um lado, as fronteiras africanas com diversos países beligerantes, por outro, a situação política e económica do nosso País, quase na banca rota, com a sociedade e políticos divididos entre “guerristas” e “antiguerristas”. Acresciam ainda as responsabilidades decorrentes da antiga aliança com a Inglaterra.

Só entrámos formalmente na Guerra em Março de 1916. Mas, já antes, a CVP se tinha envolvido no apoio aos militares mandados para o Sul de Angola através de uma subscrição para envio e manutenção de uma formação sanitária. Nesse âmbito veio a concretizar-se um hospital de 2ª linha no Lubango. Outro tanto ocorreu no Norte de Moçambique com o estabelecimento de um hospital de 200 camas que teve apreciável movimento. O Autor regista ainda a manutenção de hospitais de retaguarda em Lisboa e no Porto.

Com o início do nosso envolvimento na Guerra a Comissão Central da CVP tomou de imediato importantes decisões: abrir uma subscrição de Guerra, nomear um delegado junto do Ministério da Guerra, organizar cursos de enfermagem. Todos estas decisões são devidamente explicadas no livro com menção dos principais protagonistas, realizações, contratempos e muitas outras informações que ajudam à sua melhor compreensão. Mas, de todas as iniciativas, a que se tornou mais emblemática e é objeto de desenvolvimento detalhado no livro foi a de montar um hospital de 2ª linha junto da base militar portuguesa no Norte de França.

O processo de decisão é descrito em pormenor bem como os trabalhos da missão exploratória que se vê entretanto confrontada com compreensíveis hesitações do Ministério da Guerra. Este assoberbado com outros preparativos e face ao esforço exigido tem dúvidas sobre a capacidade e recursos da CVP. Ao mesmo tempo que decorria a missão a França a Comissão Central aprovava o primeiro regulamento das Damas Enfermeiras da CV com duas categorias técnicas, as efetivas e as auxiliares. Aprovava também o Compromisso que seria assinado pelas enfermeiras admitidas a colaborar no Hospital de França.

O livro contem muitos e interessantes detalhes sobre o processo de escolha do local para o hospital, que veio a ficar em Ambleteuse, perto de Boulogne-sur-Mer, e sobre o tipo de construção, que veio a ser uma construção nova, de barracas de madeira de um só piso, projetadas e orientadas por uma equipa de engenheiros. Entre outros aspectos regista-se o apoio da CV Britânica.

Todas estas etapas tiveram muitos avanços e recuos, alguns inverosímeis ou inexplicáveis, em que o esteio foi sempre a determinação da CVP. Por isso, o Autor dá-lhe o devido relevo mostrando como tudo foi cuidadosamente planeado e regulamentado, como foi constituída de forma muito cuidada a guarnição do Hospital. Mesmo assim, o hospital só abriu em Abril de 1918 depois da batalha do Lys e encerrou em Janeiro de 1919. Note-se que o Corpo Expedicionário Português tinha começado a ser enviado para França em Janeiro de 2017, mais de um ano antes.

O Hospital é descrito com bastante pormenor, tanto na sua estrutura como nos recursos financeiros e humanos envolvidos. Neste aspecto, o Autor tem o cuidado de citar inúmeras pessoas que deram o seu contributo abnegado e por isso foram agraciadas pela CV e pelo Ministério da Guerra. Destaca entre outras o Grupo Auxiliar das Damas Enfermeiras que, segundo diz, materializou a primeira vez que o Exército incluiu mulheres nas suas fileiras.

Percebe-se que o Hospital era confortável, que os doentes se sentiam bem tratados e que foram numerosos os serviços prestados (no total, 36 347 dias de hospitalização). Além dos nossos soldados o Hospital tratou prisioneiros e prestou cuidados de saúde à população civil.

Perante tantas e tão boas referências não admira que, desmantelado o Hospital, a Comuna de Ambleteuse tivesse oferecido espaço para se erguer um memorial. Este ficou no local de entrada do recinto hospitalar e a Comuna reconhecida comprometeu-se a cuidar dele com a maior atenção.

O Almirante Luís Gonzaga Ribeiro, segundo nos relata, enquanto presidente da CVP, visitou o monumento em 1990. Ao longo dos anos alguma deterioração natural foi reparada e a promessa da Comuna de Ambleteuse continuou a ser cumprida. Lá está o monumento “Á memória dos soldados portugueses mortos na Guerra 1914-1918” e nele também implícita a homenagem ao pessoal da CVP.

Toda esta intervenção da CVP nas várias frentes de batalha na 1ª Grande Guerra valeu-lhe a concessão do Grau de Grande Oficial da Ordem de Torre Espada de Valor Lealdade e Mérito, em Março de 1919. No livro reproduz-se o Decreto nº 5295 de onde saliento os rasgados elogios aos três hospitais que “mantiveram uma média de 1000 hospitalizados diários, cuidadosamente formados pela Sociedade da Cruz Vermelha, prestando extraordinários serviços a oficiais e soldados do nosso exército feridos gravemente em diferentes combates, auxiliando eficazmente o Serviço de Saúde do Exército, etc. etc.”.

Comentário final

Creio que o Senhor Almirante Gonzaga Ribeiro prestou mais um relevante serviço à Cruz Vermelha e aos portugueses ao publicar este livro. A revisão histórica, séria, concisa, bem fundamentada de diversas intervenções da Cruz Vermelha no primeiro quartel do século XX faz jus ao valor da Instituição e ao mérito dos que a serviram. Por outro lado, perante as elevadas qualidades demonstradas na ajuda humanitária, em defesa da vida, da saúde e da dignidade da pessoa humana, esta obra insta-nos a colaborar sem reticências.

A terminar, não posso deixar de referir os excelentes Prefácio e Posfácio contendo apreciações sintéticas e elogiosas da Obra. Maria Dulce Simões fala-nos do “relevante labor de investigação, contributo para futuros estudos”, do conceito de aldeia global muito enraizado no Autor, do contributo para o desenvolvimento organizacional na área do trabalho humanitário. Augusto Moutinho Borges salienta o ineditismo do trabalho, os relatos tocantes, a visão interdisciplinar, a confirmação dos valores da Cruz Vermelha.

A meu ver merece ainda um elogio a Editora By The Book. O seu logótipo faz logo antever toda a preocupação com o design gráfico que se encontra refletida na excelente apresentação do livro. Outras características notáveis desta editora já nos tínhamos apercebido por outros trabalhos, nomeadamente, em “Médicos e Sociedade” coordenado por Barros Veloso.

Esta obra, “Retrato da Cruz Vermelha”, é pois, uma profissão de fé optimista, proposta por alguém que conhece bem a organização, os seus valores e princípios, os esforços necessários e as adversidades a ultrapassar para os levar à prática. Optimismo quanto ao futuro, mas ancorado num notável percurso de 150 anos, em que geração após geração, campanha após campanha, se foi construindo e pondo em prática a tal “cultura da CVP”. Todos os sinais aqui recolhidos levam a supor que assim se prosseguiu desde os anos vinte do século passado até hoje e que assim se prosseguirá sempre no futuro.